Em 20 de março de 2020, de Lisboa, enquanto lutava com todas as minhas forças para conseguir um voo de volta para o Brasil, vi no noticiário o então presidente Jair Bolsonaro (PL) dobrar a aposta contra as medidas de enfrentamento ao Coronavírus. Àquela altura, as mortes ainda eram poucas, mas havia o prenúncio do que viria. Cortando para os últimos dias, o agora ex-presidente fez o mesmo em relação ao risco de ser preso. Mesmo com medidas cautelares impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dobrou a aposta, teve mensagem gravada para manifestações contra a Suprema Corte e pagou por isso. Nos dois casos, houve método.
O movimento feito pelo ex-presidente, neste momento, claramente provocaria reação do ministro Alexandre de Moraes, relator de processos em que Bolsonaro é réu por envolvimento na trama golpista alegada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O ex-mandatário teve medidas cautelares impostas pelo magistrado desde o final de julho e, desde então, recebeu pelo menos um aviso do risco de ter a prisão preventiva decretada. De início, havia dúvidas sobre a extensão das restrições. Afinal, poderia ou não dar entrevistas. Elas foram esclarecidas. Havia permissão, mas o conteúdo não poderia ser compartilhado em redes sociais.
Alguém pode discordar da decisão original do ministro, mas não de que ela teve sua extensão esclarecida. Os advogados sabiam, a militância sabia. O descumprimento levaria fatalmente ao trecho da música “O mundo é um moinho”, de Cartola, o que fala do “abismo que cavaste com teus pés”. E foi feito, com chamadas de vídeo para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e depois para o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), no último domingo (3). O primeiro foi parar na rede social de Flávio e apagada horas depois. Não adiantou. A este foram juntados outros fatos e a decisão veio.
A decisão de tensionar a relação com o Supremo, aparentemente, foi intencional. Ela ocorre no momento em que a família Bolsonaro trava uma guerra particular contra os ministros da Suprema Corte, notadamente com Moraes. E tem usado o presidente Donald Trump como instrumento para a contenda. O mandatário norte-americano aplicou sanções contra o país e contra o relator dos processos que têm Bolsonaro como alvo. Ele tem usado o ex-presidente brasileiro como munição para negociar a pauta econômica com o Brasil.
Não deve conseguir a liberdade de Bolsonaro, mas o Brasil vai perder mais na negociação para compensar.
Bolsonaro é réu na ação penal sobre a trama golpista, na qual responde por cinco crimes, entre os quais tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Ele foi preso por descumprir medidas cautelares que haviam sido aplicadas na investigação que apura uma suposta articulação juntos aos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras em troca de anistia na trama golpista.
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