Executivo
Presidente da Anvisa rebate insinuações de Bolsonaro sobre “interesses” na vacinação de crianças e cobra retratação
08/01/2022 21:20
Suetoni Souto Maior
Antônio Barra Torres garante que não há escusos na liberação da vacina. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

O presidente Jair Bolsonaro (PL) foi cobrado publicamente neste sábado (8) pelo diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres. Militar da Marinha, o gestor quer que o mandatário se retrate por insinuações feiras em uma entrevista de que a agência teria atendido a interesses não republicanos para a aprovação da vacinação para crianças com idades de 5 a 11 anos. Atualmente, já estão liberadas as vacinas para o grupo de 12 a 18 anos, inclusive com distribuição pelo Ministério da Saúde. Em relação às crianças, as vacinas ainda são aguardadas.

“Você vai vacinar o teu filho contra algo que o jovem por si só, uma vez pegando o vírus, a possibilidade dele morrer é quase zero? O que que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?”, declarou Bolsonaro na entrevista à TV Nova Nordeste. As declarações foram dadas na última quinta-feira (6). Nela, Bolsonaro minimizou as mortes e complicações decorrentes da Covid que atingem crianças nesta faixa etária.

Barra Torres é almirante da Marinha do Brasil e médico. Ele cobrou do presidente que se ele tem provas, “não perca tempo nem prevarique” e “determine imediata investigação policial”.

Confira a nota na íntegra:

Nota – Gabinete do Diretor Presidente da Anvisa, Sr. Antonio Barra Torres

Em relação ao recente questionamento do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, quanto à vacinação de crianças de 05 a 11 anos, no qual pergunta “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, o Diretor Presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, responde:

Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário.

Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente.

Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho.

Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter.

Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.

Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate.

Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente.
Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário.

Antonio Barra Torres
Diretor Presidente – Anvisa
Contra-Almirante RM1 Médico
Marinha do Brasil

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