Judiciário
Busca por ‘bala de prata’ para virar eleição só tem trazido desgastes para Bolsonaro
27/10/2022 07:46
Suetoni Souto Maior
Bolsonaro logo após derrota nas urnas, ao lado do ex-ministro Anderson Torres (Justiça), também investigado. Foto: Divulgação/ABr

Os últimos dias têm sido de más notícias para a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL). As tentativas do staff do candidato à reeleição para virar o jogo no segundo turno têm se revelado furadas e até capazes de causar dano eleitoral. O primeiro foi o episódio envolvendo o mandado de prisão do extremista ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), no último domingo (23). Grupos bolsonaristas chegaram a fazer a defesa do ex-parlamentar, segundo eles, perseguido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Mas deu tudo errado após ele atirar em policiais. Restou ao presidente chamá-lo de bandido.

O episódio repercutiu mal na imprensa e nas redes sociais. Era um conservador e “patriota”, apoiador do presidente, atirando em policiais federais no melhor estilo faroeste. Restou ao staff do presidente procurar algo rápido para servir de cortina de fumaça, para tirar o foco de um tema desgastante. Daí, o ministro Fábio Faria (Comunicações) teve a “brilhante” ideia de puxar uma entrevista coletiva para anunciar suposta fraude para favorecer o ex-presidente Lula (PT), primeiro colocado nas pesquisas. A suposta fraude teria o apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado também por Moraes.

Isso ocorreu na segunda-feira (26). Parecia perfeito. Uma acusação de que rádios, principalmente do Nordeste, estavam boicotando a campanha de Bolsonaro, deixando de veicular as inserções do presidente. Isso foi o suficiente para colocar a militância bolsonarista novamente nas redes. Os alvos eram Moraes e Lula, os inimigos perfeitos. Acontece que o documento da denúncia protocolado no TSE não trazia prova alguma. Cobrado, o staff de campanha do gestor encaminhou um relatório feito por uma empresa não especializada em auditoria que usou o streaming das rádios para o monitoramento.

O problema é que várias coisas não param de pé na acusação ao TSE. O primeiro e mais humilhante para a campanha é que a obrigação de fiscalizar as inserções nas rádios é do partido, não da Justiça Eleitoral. A ela cabe apenas fazer o mapa das inserções e cuidar para, em caso de denúncia, obrigar a rádio irregular a divulgar a campanha. Mas para além disso, o relatório apresentado trazia inconsistências, principalmente porque não foi feito por empresa de auditoria e nem com o sinal captado no dillon das referidas rádios. Isso traz inconsistências porque muitos veículos transmitem outra programação no streaming no horário das inserções, por não terem obrigação de manter a propaganda na internet. O destino não poderia ser outro: a denúncia foi rejeitada. Até por que trazia apenas um recorte mal acabado da denúncia.

Com isso, nem as rádios, as supostas causadoras do problema, serão responsabilizadas, já que a ação foi indeferida pelo ministro. Retornando, só para reforçar: não é obrigação do TSE encaminhar mídias para divulgação e nem a fiscalização. Se o partido entender que está sendo prejudicado, ele denuncia a rádio e a Justiça Eleitoral obriga o veículo a cumprir e pode até multá-lo ou tirá-lo do ar. Já vi isso ocorrer. Tudo fora dessa questão é fantasia, estória do lobo mal manjada pela Chapeuzinho. Lógico que Alexandre de Moraes rejeitou a ação e ainda a encaminhou para investigação no inquérito das milícias digitais.

Bolsonaro, por outro lado, não aceitou. Mais cedo, fez discurso inflamado em ato com apoiadores. À noite, convocou coletiva, agora com tom conciliador. “Com toda a certeza, nosso jurídico deve entrar com recurso já que foi para o Supremo Tribunal Federal. Ou seja, da nossa parte, nós iremos às últimas consequências, dentro das quatro linhas da Constituição, para fazer valer aquilo que as nossas auditorias constataram que há realmente um enorme desequilíbrio no tocante às inserções. Isso obviamente interfere na quantidade de votos no final da linha”, afirmou.

O presidente ainda teceu críticas a Alexandre de Moraes, dizendo que ele “matou no peito” ao tomar a decisão contrária a sua campanha. “Agora há pouco, tivemos notícia, corpo jurídico está analisando, senhor Alexandre de Moraes na linguagem popular matou no peito o processo e encaminhou para o Supremo parte ou todo para o inquérito das fake news”, disse.

Diante de tudo isso, não há outra conclusão: ou o presidente e seu staff corrige o curso e passa a buscar votos ou pode dar adeus às chances de virada na eleição.

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