Executivo
Adeus ao Papa Francisco, o primeiro latino-americano e que combateu a pedofilia na Igreja paraibana
21/04/2025 07:35

Suetoni Souto Maior

O Papa Francisco durante discurso na ONU. Foto: Matt Campbell/Lusa

O mundo acordou nesta segunda-feira com a notícia do fim de um ciclo singular na história da Igreja Católica. Morreu, aos 88 anos, o Papa Francisco — o primeiro latino-americano, o primeiro jesuíta e o primeiro com o nome inspirado no santo dos pobres. A confirmação oficial partiu do Vaticano nas primeiras horas da manhã, poucas horas após a última aparição pública do pontífice, na sacada da Basílica de São Pedro, onde acenou aos fiéis e, com a voz debilitada, desejou-lhes um breve “Boa Páscoa”.

O anúncio foi feito pelo cardeal Kevin Farrell, camerlengo da Igreja e responsável pela transição do poder papal. “O Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai às 7h35 (2h35 em Brasília)”, declarou, emocionado, durante comunicado na Casa Santa Marta, residência oficial do pontífice. Farrell exaltou a trajetória do papa como “um exemplo de discipulado e amor pelos marginalizados”, reforçando o legado pastoral que se tornou a marca registrada do argentino Jorge Mario Bergoglio.

Francisco chegou ao trono de Pedro em 13 de março de 2013. Às 20h12 daquele dia, o então arcebispo de Buenos Aires surgia na sacada da basílica para ser apresentado ao mundo. “Foram me buscar quase no fim do mundo”, brincou, ainda com a fumaça branca da Capela Sistina mal dissipando no céu romano. Veio, junto com ele, a promessa de mudança. E ela veio.

Nestes 12 anos de pontificado, Francisco promoveu aberturas antes impensáveis nos salões de mármore do Vaticano. Pôs a crise ambiental na pauta da Igreja, enfrentou o tabu da pedofilia com inédita franqueza, e rompeu com protocolos ao debater, ainda que de forma tímida, temas como o celibato clerical e a ordenação de mulheres. Nos bastidores, enfrentou resistências internas, especialmente da ala mais conservadora da Cúria, por onde passou como um reformador moderado, mas insistente.

Em relação à pedofilia, combateu o escândalo ocorrido na Arquidiocese da Paraíba quando ela era comandada pelo arcebismo Dom Aldo di Cillo Pagotto. O religioso, na época, foi acusado de envolvimento em casos de abuso sexual dentro da Igreja, em caso que envolvia padres e seminaristas. Na época, o líder da igreja paraibana foi obrigado a renunciar. Ele faleceu anos depois do ocorrido, já morando no Ceará.

A saúde do pontífice vinha sendo alvo de preocupações há anos. Desde jovem, lidava com sequelas de uma pneumonia grave que lhe custou parte de um pulmão. Nos últimos tempos, convivia com dores crônicas no quadril, problemas na coluna e artrose nos joelhos — que limitaram sua mobilidade e o levaram a depender de cadeira de rodas em compromissos públicos.

Em 2021, Francisco passou por uma cirurgia para a retirada de 33 centímetros do intestino grosso, por conta de uma diverticulite. Em entrevista no fim de 2022, revelou ter assinado uma carta de renúncia caso a saúde o impedisse de continuar no cargo. Chegou perto disso no ano seguinte, após nova cirurgia abdominal, mas resistiu.

Nas últimas semanas, o quadro clínico se agravou. Internado no Hospital Agostino Gemelli, em Roma, foi diagnosticado com uma infecção respiratória polibacteriana no dia 17 de fevereiro. Dois dias depois, os médicos confirmaram o comprometimento dos dois pulmões por pneumonia. No sábado (22), sofreu uma grave crise respiratória asmática, que exigiu suporte de oxigênio e transfusão de sangue. O desfecho era questão de tempo.

Mais do que um papa, Bergoglio foi símbolo de um tempo — de transição, de questionamento, de tentativa de aproximação da Igreja com um mundo cada vez mais distante dos ritos e códigos do Vaticano.

Seis dias antes de ser eleito, deixou claro o tom que daria ao seu pontificado. Em um pronunciamento de menos de quatro minutos durante a Congregação Geral, criticou duramente a Igreja “autorreferencial” e “doente de narcisismo”. Os cardeais ouviram. E ele foi eleito.

Francisco sai de cena como entrou: disruptivo, empático e provocador. A Igreja entra, agora, em sede vacante. O mundo católico, em luto. E o Vaticano, em busca de um novo pastor.

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