Executivo
União de Lula com FHC só surpreende a quem não conhece o pragmatismo dos dois
22/05/2021 09:36
Suetoni Souto Maior
FHC e Lula comandaram a política nacional por 16 anos. Foto: Ricardo Stuckert

Quando a gente fala sobre Lula e FHC algumas questões vêm logo à mente: o antagonismo histórico, a grande capacidade de agregar alianças em torno deles e a referência política propriamente dita. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala e é ouvido por uma parcela significativa da população. Já Fernando Henrique Cardoso fala e é seguido por outra. Sobre a visão de Brasil, eles se entendem em parte, mas concordam no todo quanto à oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Daí é fácil entender a aproximação. Ela não se dará no primeiro turno das eleições do ano que vem em hipótese alguma, mas nenhuma barreira será construída para impedi-la no segundo turno. Este movimento não é muito diferente do que aconteceu ano passado nos Estados Unidos, onde Bernie Sanders abriu mão da candidatura para apoiar Joe Biden. O inimigo comum era Donald Trump. Daí você pode dizer: ah, mas ambos são democratas e teria que restar um mesmo. De fato, assim como no Brasil sobram dois candidatos antagonistas em um segundo turno.

Mesmo sendo de partidos diferentes, com visões de mundo diferentes, Lula e FHC se completaram enquanto gestores. O primeiro seguiu a política do segundo quando governou o Brasil. Com a saída de Fernando Henrique do governo, o mesmo rigor sobre as contas públicas foi mantido por Lula, com busca de superavit e controle da moeda. A diferença principal ficou por uma maior atenção à área social no governo petista. Mas isso não quer dizer que o tema foi negligenciado no governo tucano. Várias das iniciativas de Lula apenas ampliaram as iniciadas por FHC.

Apesar das convergências, Lula e FHC trilharam um caminho de tensionamento iniciado após a redemocratização, que criou as condições para que os dois grupos se revezasse no poder. Entre 1994 e 2014 houve sempre um petista e um tucano no segundo turno. Isso só veio mudar em 2018, sob condições muito especiais que levaram à ascensão quase que inacreditável do até então inexpressivo deputado federal Jair Bolsonaro (sem partido). E é justamente contra Bolsonaro, surgido como outsider e com pinta de demagogo, que Lula e FHC agora se posicionam.

O encontro recente na casa do ex-ministro Nelson Jobim mostra essa disposição. Os dois cresceram politicamente sob o verniz democrático e veem em Bolsonaro o risco de uma guinada autocrática danosa à democracia, similar à ocorrida na Venezuela. Lá, Maduro minou as instituições, aparelhando a Suprema Corte, destruiu a economia e se escora em um governo militarizado. A aproximação de Fernando Henrique de Lula ocorre pelo entendimento de que apenas a união de forças democráticas é capaz de fazer frente ao que vem pela frente em 2022.

FHC chega para a disputa na condição de coadjuvante por ser hoje um “general” com conceito positivo, criado ao longo dos anos, mas sem exército. A militância tucana, em grande parte, migrou para as fileiras bolsonaristas. Lula chega com o status de único capaz de fazer frente ao capitão reformado do Exército. O petista leva vantagem nas pesquisas por ora por causa dos péssimos resultados do atual presidente nos campos econômicos e da saúde. Apesar disso, pelo que vimos até agora, a batalha para o ano que vem será daquelas memoráveis. Preparem a pipoca.

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