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TBT: um ano atrás, eu e minha família ficávamos ‘presos’ pela pandemia em Portugal
18/03/2021 22:35
Suetoni Souto Maior
Neve na Serra da Estrela, enquanto o mundo se preocupava com a Covid-19. Foto: Suetoni Souto Maior

Sabe aquela viagem dos sonhos? Eu e minha família planejamos uma com muito esmero. O projeto envolveu dois anos de economias e muito carinho para escolher o roteiro. Desembarque em Lisboa, em Portugal, no dia 9 de março, partida para Roma, na Itália, no dia 15, e chegada em Veneza, também na Itália, por volta do dia 20. Depois disso, seria o caminho de volta, passando novamente por Lisboa, de onde voltaríamos para o Recife e depois, finalmente, para João Pessoa. Estaríamos por aqui no dia 25. A gente só não contava com a pandemia.

Sim, nos primeiros dias de março do ano passado já se falava com muita força da pandemia que havia saído da China. Tinha casos registrados no Norte da Itália, mas as autoridades tinham “fechado” a cidade. Líamos o noticiário e ele dizia que tudo estava funcionando normalmente nas cidades portuguesas e italianas que visitaríamos. Antes de viajar, conversei com o médico cardiologista André Télis, colunista da CBN Paraíba. Ele me disse: “se eu fosse você, não viajaria. Acho que vai fechar tudo quando você estiver na Europa”.

Eu ouvi aquelas palavras embasadas na ciência, na opinião de um profissional da área. Então, eu pensei, pensei… eu poderia ter desistido, não é? Não, eu não poderia. Eu nunca tinha passado por uma pandemia na vida para prever a tragédia que esta ia representar. Ouvi minha amiga Carla Visani, companheira de CBN. Ela é apaixonada por Roma, e eu também. Ela foi várias vezes, eu nunca. Então fiz as contas e, por elas, eu voltaria antes que a coisa ficasse feia. Ledo engano.

Partimos no dia 8 do Recife em direção a Lisboa. Fomos eu, Kelly (minha mulher), e os dois filhos pequenos, Fernando (10) e Clara (4). Beatriz, a mais velha, estava em pleno período de aulas na UFPB e acabou ficando. Desembarcamos no dia 9, em Lisboa. Um clima de 17 graus, comprei um chip internacional e coloquei no celular. Chamei um Uber e quando chegou, imagine? O motorista era recifense e torcedor do Sport. Pensei: deve ser sinal de sorte. Até agora tenho minhas dúvidas, mas não dá para botar a culpa no cara.

Daí, os dias foram de diversão. Fomos passear pela cidade linda e acolhedora que é Lisboa. Ver os palácios, os castelos, as praças, os restaurantes e por aí vai. No dia 12, uma quarta-feira, fez 27 graus e os portugueses lotaram as praias. Foi a gota d’água. Os casos começaram a ser registrados e o governo determinou o fechamento de museus, cinemas e tudo o que poderia causar aglomeração. A coisa na Itália começou a complicar e ficamos com medo de ir para Roma.

Suetoni, Fernando, Kelly e Clara. Foto: Suetoni Souto Maior

Os casos em Portugal ainda eram poucos. A TV dava muita atenção à discussão sobre a Covid-19 e decidimos não mais ir para Roma. Isso já era dia 13, havíamos voltado da visita a uma amiga, em Paço de Arcos. Então, botamos na conta: nada de visita ao Vaticano, nada de visita aos museus, nada de comer pizza na Itália. Parecia castigo. Perdemos grande parte do nosso investimento. Fomos para Sintra, no sábado, dia 14. No dia seguinte, partimos de trem para Covilhã, na borda da Serra da Estrela. Era a oportunidade de ver neve. Vimos.

Enquanto estávamos em Covilhã, ouvíamos os relatos de que os casos estavam aumentando. Naquele momento, ninguém usava máscara ainda nas ruas. Com exceção dos orientais. De qualquer forma, alugamos um carro e começamos a passear pela região. Fomos a Manteigas e a Belmonte. Esta última é a terra onde nasceu Pedro Álvares Cabral. Víamos a maioria das atrações, que eram museus e castelos, fechados. Poucas pessoas nas ruas. As pessoas olhavam para nós e parecíamos extraterrestres, acho.

Líamos muito o noticiário sobre Portugal e o Brasil, principalmente. Numa das notícias, lemos que no Alentejo não havia sido registrado nenhum caso da Covid-19. Era uma ilha num país que começava a se apavorar, vizinho a uma Espanha que já vivia um colapso nas unidades de saúde. Decidimos, então, fazer as malas e viajar para Évora, a cidade mais importante da região produtora de vinhos. Nem tudo numa pandemia precisa ser ruim. Fomos para Évora. Um amigo me contou que a cidade era linda. E é verdade.

Partimos no dia 19, de carro. A rodovia era maravilhosa, só que em um certo ponto eu errei o caminho. Acabei indo por uma rodovia mais vicinal e pouco movimentada. Foi bom. Passamos por várias vinhas, por regiões produtoras de cortiça e finalmente chegamos a Évora. Nessa correria, Kelly tinha até trocado as passagens do trecho que iríamos para Roma, por uma ida para Bruxelas, na Bélgica. Ficaríamos na casa de um casal amigo. Só que as coisas por lá também ficaram feias.

Ao chegarmos em Évora, vimos uma cidade lindinha, mas fantasma. Tudo estava fechado. Eu saía às ruas e via as poucas pessoas me olhando, como quem acha estranho. Vi o templo de Diana, uma construção romana com algumas colunas ainda em pé. O medo começou a tomar conta de todos nós. Nossos amigos da Bélgica insistiam para que fossemos para lá. Eu tinha medo, porque imaginava que se fechassem tudo, nós conseguiríamos voltar de Portugal, por ser um país irmão.

Tentamos várias vezes remarcar nossas passagens para antecipar a volta, mas não conseguíamos. Eu gravei um depoimento e mandei para a TV Cabo Branco, falando da situação em Portugal. Recebi diversas ligações de pessoas preocupadas comigo e minha família. Só bem depois, ao rever a imagem, percebi o tom de abatimento no meu depoimento. O fato é que no dia 21, quando deveríamos estar em Veneza, no nosso plano inicial, decidimos voltar de todo jeito.

Naquele momento, nós já estávamos racionando o dinheiro por medo de ficar muito tempo em terra estrangeira. Tínhamos feito feira para ficar mais tempo. Pegamos o carro e seguimos para Lisboa. Ouvimos muitos relatos de brasileiros que chegaram no aeroporto e conseguiram ser embarcados. Fomos com a cara e a coragem. A viagem era de uma hora e meia. Estacionamos no aeroporto e entramos pelo lado errado. Uma policial pediu para ver as passagens e Kelly foi se aproximando para mostrar. Ela decidiu nem olhar a data e mandou entrarmos.

Daí a sacada. Só permitiam a entrada de quem tinha passagem para aquela data. A nossa era para o dia 25, mas a policial teve medo de contágio pela Covid. Lá dentro, ao buscar informações, um policial me descobriu e queria me botar para fora do aeroporto. Mas me viu com duas crianças. Perguntou se eram meus filhos. Eu disse que sim e ele nos encaminhou para o guichê da companhia aérea. Depois de muita peleja, a notícia: “vocês serão embarcados hoje, mas para o Rio de Janeiro”. Ufa! O Rio já é Brasil, pensamos.

A companhia também arrumou uma conexão do Rio para o Recife. Demoraríamos para chegar, mais chegaríamos. Eu ouvia que no Brasil os casos estavam começando a se multiplicar e que estavam adotando medidas severas para o enfrentamento da pandemia. Imaginei barreiras sanitárias em todas as rodovias. Aquelas coisas de filme. No dia 22 de março, estávamos nós em solo brasileiro. Daí me dei conta de que não havia cuidado algum pelas bandas de cá. Raras pessoas usavam máscara no Aeroporto do Galeão, no Rio.

Desembarcamos no Recife depois e seguimos de carro para João Pessoa. Não tinha barreira alguma. Ao chegarmos em casa, ficamos os 15 dias em isolamento, como o recomendado. Enquanto isso, voltei ao trabalho no blog e na rádio CBN, onde trabalhei até o ano passado. Sobre os cuidados com a pandemia, até hoje espero que as pessoas tenham pelas bandas de cá os mesmos que vi lá por Portugal. Nossas férias foram uma aventura, mas não quero reprise. Agora sonho com o fim da pandemia, com a vacina e com nossa vida de volta.

Ano que vem, neste espaço, espero que possamos lembrar de agora como aprendizado, mas sem nenhuma marquinha de saudade.