Executivo
“Dark Horse”: não dá para chamar dinheiro sujo de investimento privado
17/05/2026 11:32

Suetoni Souto Maior

Flávio Bolsonaro cobrou repasses de Vorcaro para conclusão de filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Montagem

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viu cair por terra, na semana passada, a aura de honesto que tentava construir após ajuda do Supremo Tribunal Federal para enterrar investigações sobre rachadinhas, fantástica loja de chocolates e compra de mansão. Apesar do teto de vidro, a estratégia vinha dando certo, ao menos para uma fatia significativa do eleitorado. Até que vieram à tona os pedidos de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, preso por decisão do ministro André Mendonça, do STF. Os recursos podres da instituição financeira deveriam financiar o filme Dark Horse, uma biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), hoje preso.

Não demorou para que Flávio Bolsonaro viesse a público para se justificar, alegando que os áudios mostravam apenas o pedido de um filho por investimento privado para financiar o filme do pai. Ele reforçava que ali não havia um centavo de dinheiro público. A fala, apesar de comprada pelos bolsonaristas para isentar o filho do ex-presidente, não para de pé. Primeiro porque o áudio com o pedido foi feito um dia antes da primeira prisão de Vorcaro, quando ele se preparava para fugir para Dubai, nos Emirados Árabes. Naquela quadra, todo mundo já sabia que o dinheiro do banqueiro não havia sido conquistado honestamente.

A lista de acusações chanceladas pelo ministro André Mendonça, que foi nomeado para o Supremo por Jair Bolsonaro, inclui lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, além de táticas de intimidação, coerção e invasão de dispositivos informáticos, entre outros crimes. Vorcaro foi muito beneficiado pelo Banco Central durante o governo do ex-presidente. Sob a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central, ele acumulou vitórias sobre os grandes bancos e transformou o Master numa potência, turbinada por promessas falsas e fraudes nos fundos de pensão.

Os esquemas dele se perpetuaram com golpes permitidos por governadores da extrema direita, como Cláudio Castro (PL-RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF), aliados de Jair Bolsonaro. Isso sem falar no prejuízo causado na Amprev, do Amapá, que trouxe suspeitas sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Os esquemas de Vorcaro quase quebraram o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e deixaram milhares de correntistas no prejuízo. E tudo isso era conhecido por Flávio Bolsonaro no momento em que cobrava dinheiro do banqueiro e o convidava para jantar.

A pressão sobre o senador se tornou maior após as descobertas reveladas pelo The Intercept Brasil. Até aquele momento, ele vinha propagando a tese de envolvimento da esquerda com o banqueiro, o que, com exceção do senador Jaques Wagner (PT-BA), não foi mostrado pelas investigações até agora. Os alvos têm sido pessoas ligadas ao centrão e a Jair Bolsonaro. O ministro Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, foi ministro da Casa Civil do ex-presidente. O grupo ligado a Vorcaro foi doador de campanha também do ex-presidente e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta se afastar da polêmica.

Então, o argumento de Flávio Bolsonaro de que não tinha proximidade com Vorcaro e que o dinheiro era privado é difícil de engolir. Até porque no momento da cobrança, como ressaltei acima, todos já sabiam dos esquemas. Numa comparação grosseira, a diferença entre o dinheiro recebido de um traficante pelo pastor Silas Malafaia, em 2016, e o recebido por Flávio Bolsonaro agora é o montante. Os R$ 100 mil dados a Malafaia e que o fizeram ser alvo de operação da Polícia Federal na época é um trocadinho, se comprado com os R$ 134 milhões cobrados por Flávio para o filme Dark Horse (azarão, em tradução livre).

É possível imaginar que essa história não acaba por agora e mais fatos nos serão apresentados. O próprio senador admitiu em entrevista à CNN que outros áudios e imagens poderão aparecer no curso da investigação. Então, enquanto o filme não vem, vamos estourar a pipoca e assistir à novela.

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