Executivo
Mensagens em grupos privados da Hapvida sugerem que médicos eram cobrados por “meta” de cloroquina receitada
01/10/2021 18:26
Suetoni Souto Maior
Cloroquina era prescrita por médicos no "kit covid". Foto: Diego Vara/ABr

A Prevent Senir, pelo jeito, não estava sozinha no estímulo ao uso de medicamentos ineficazes para o combate à Covid-19 no Brasil. Uma denúncia publicada nesta sexta-feira (1º) em O Globo mostra que a Hapvida, uma operadora de saúde com forte presença no Norte e Nordeste, estimulava os médicos a receitarem cloroquina para o enfrentamento da pandemia. Mensagens de áudio e texto compartilhadas em grupos privados da empresa mostram que havia até uma espécie de cobrança de produtividade para que os médicos receitassem o “kit Covid”.

As mensagens compartilhadas em janeiro estimulam os médicos a aumentarem “consideravelmente” a prescrição de cloroquina. E mais: fazer o convencimento da população de que ela seria curada com o medicamento. Naquele momento, o Brasil assistia atônito à crise das mortes em Manaus, no Amazonas. O mais assustador é que naquele momento sobravam estudos apontando a ineficácia e os riscos do “kit Covid”. A justificativa dos diretores da empresa, na época, era que a prescrição ia ajudar a enfrentar o crescimento dos casos. O ato contínuo disso foi a elevação desenfreada das mortes.

“A gente tem uma luta muito grande nos próximos dias para aumentar consideravelmente a prescrição de cloroquina, o kit Covid, para garantir que a gente tenha menos pacientes internados”, diz o áudio gravado por um integrante da empresa e encaminhado pelo diretor da Hapvida Alexandre Wolkoff, segundo matéria de O Globo. Havia até gráficos mostrando com cores os hospitais que mais receitavam cloroquina.

“Eu peço para vocês. A liderança de cada unidade, a diretoria médica, os regionais precisam liderar isso. A gente precisa subir a prescrição de cloroquina. Então, eu peço que vocês… não é só para Manaus, só para uma unidade ou outra, mas para todos as unidades, a gente (tem que) ter um aumento signiticativo da prescrição do kit Covid. Cada diretor médico da unidade é diretamente responsável por esse indicador”, acrescenta um dirigente da operadora.

Naquele momento, o Brasil ultrapassava a marca de mais de 220 mil mortes. Atualmente, estamos perto das 600 mil mortes. O número de casos só reduziu quando chegaram as vacinas. Apesar disso, a Hapvida reforçava que seria preciso ampliar a prescrição de tratamento precoce. O Globo teve acesso a mensagens, planilhas e documentos de um grupo de WhatsApp de funcionários da operadora enviados entre março de 2020 e maio de 2021. O material sugere que a prática de pressionar médicos para recomendar o kit covid era recorrente.

O que a empresa diz
Em nota, a Hapvida afirmou que, “no passado, havia um entendimento de que a hidroxicloroquina poderia trazer benefícios aos pacientes”. Por isso, a empresa diz: “Houve uma adesão relevante da nossa rede, que nunca correspondeu à maioria das prescrições, no melhor intuito de oferecer todas as possibilidades aos nossos usuários”.

A companhia reiterou, no entanto, que a prescrição ocorria sempre durante as consultas e “de comum acordo entre médico e paciente, que assinava termo de consentimento específico em cada caso”. Como prova de que não obrigava a prescrição, a empresa cita que a receita do kit Covid nunca “correspondeu à maioria das prescrições”.

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