Judiciário
Pablo Marçal, ex coach e aspirante a político, vira réu por culto à imprudência
22/05/2025 07:00

Beatriz Souto Maior

Em janeiro de 2022, Pablo Marçal — então coach e aspirante a político — liderou uma expedição desastrosa ao Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, levando 32 pessoas completamente inexperientes para enfrentar uma subida pesada em meio a condições climáticas claramente adversas. Chuva intensa, ventos fortes e risco real de hipotermia marcaram a jornada. O Corpo de Bombeiros foi acionado e evitou que o que já era absurdo se transformasse em tragédia.

Marçal, por sua vez, alegou que todos estavam cientes dos riscos e que ninguém foi forçado a subir. Ainda assim, o Ministério Público entendeu que houve exposição deliberada a perigo iminente e ofereceu um acordo de R$ 273 mil para encerrar o processo.

Não há “superação” nessa história — só irresponsabilidade. Marçal, conhecido por cobrar caro para despejar uma mistura de chavões de autoajuda, religiosidade performática e machismo empacotado em discursos motivacionais, levou um grupo sem qualquer preparo para uma expedição arriscada. Detalhe: tudo isso no auge da temporada de tempestades de verão e contra alertas meteorológicos e a orientação de guias locais.

O resultado? Barracas arrancadas pelo vento, gente encharcada, tremendo de frio e à beira da hipotermia — sustentada, segundo o líder, apenas pela fé. Nos vídeos da época, Marçal tenta animar os poucos que seguiram com ele dizendo que “só prosperam os que têm convicção”. Aparentemente, ele ainda não aprendeu que convicção não substitui bom senso — e muito menos previsão do tempo.

A defesa sustenta que ninguém foi coagido a nada, mas isso não apaga o absurdo de transformar uma aventura mal planejada num “desafio espiritual”, travestido de provação divina. Se dependesse apenas da força da fé, talvez o desfecho fosse trágico. Felizmente, o resgate chegou a tempo.

Apesar da gravidade, a polícia concluiu que os participantes agiram por conta própria e não indiciou Marçal por tentativa de homicídio. O Ministério Público, porém, questionou essa leitura e ainda contestou a legitimidade de parte das testemunhas do caso. Como precaução, a Justiça proibiu Marçal de realizar qualquer nova atividade em áreas naturais sem autorização das autoridades competentes.

O episódio, no entanto, é mais do que uma aventura mal-sucedida: ele escancara uma tendência preocupante que se espalha entre setores conservadores — a combinação tóxica de autoajuda barata, masculinidade tóxica e discurso religioso distorcido. Marçal se aproveita dessa fórmula para embalar sua narrativa de “superação” e “prosperidade”, ainda que à custa da segurança e do bom senso.

É um modelo que ganha força entre os desavisados, vende a ilusão de força como sinônimo de fé, e transforma imprudência em virtude. Só que a conta, invariavelmente, vem. E nem sempre com final tão ameno quanto dessa vez.

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