Executivo
Encruzilhada de Queiroga: atender Bolsonaro e desobrigar uso da máscara ou atender à ciência?
10/06/2021 22:16
Suetoni Souto Maior
Queiroga confirmou reunião com Bolsonaro, mas negou a saída do Ministério da Saúde. Foto: Divulgação

O ministro paraibano Marcelo Queiroga (Saúde) demonstra há vários anos uma habilidade notável para a política e a tem usado bastante em Brasília. Mais recentemente, externou outra habilidade igualmente impressionante: a de equilibrista. Está sempre ali exibindo o perfil de pessoa que ouve a ciência e a necessidade de atender os arroubos muitas vezes negacionista do presidente. O último é a pretensão de Jair Bolsonaro (sem partido) de ver liberado da obrigação de usar máscara quem tiver tomado a vacina ou sido contaminado pela Covid-19.

“Eu falei com o Queiroga agora. Não impus nada a ele. Se bem que também tenho que dar minhas piruadas aí, no bom sentido. ‘É possível a Saúde apresentar um estudo aí da desobrigatoriedade da máscara para quem já foi vacinado ou para quem já foi contaminado e curado, poxa?’. Ele falou: ‘É possível, é possível’. Vamos fazer isso. Vamos ficar reféns de máscara até quando? Está servindo para multar gente, pessoal. Está servindo para multar. Eu fui ameaçado agora de multa em São Paulo”, declarou.

Qualquer pessoa que leve em conta que o Brasil continua com altas taxas de contaminação e de mortes pela Covid-19 sabe que isso é uma loucura. Atualmente, superamos a casa das 480 mil mortes. Só nesta quinta-feira (10) foram registrados 2.344 óbitos, segundo o Consórcio de Veículos de Imprensa. Em meio a este caos, imaginar que a vacina, sozinha, resolva o problema é sujeitar o cidadão à própria sorte. O mesmo vale para quem sobreviveu ao vírus em uma primeira infecção. A tese de imunidade deste público já caiu por terra.

A declaração foi dada por Bolsonaro no Palácio do Planalto, ao discursar durante solenidade de lançamento de programas do Ministério do Turismo. O presidente usou máscara antes e depois do evento — ele só retirou a proteção para discursar. Durante a transmissão, disse que não impôs ‘nada’ ao ministro da Saúde, mas que pediu o estudo sobre as pessoas poderem transitar sem máscara. Os países que liberaram a retirada da máscara o fizeram dentro de situações muito especiais, com a pandemia controlada. Este, nem de longe, é o caso do Brasil.

De acordo com dados do consórcio de veículos de imprensa, 11,06% da população receberam a segunda dose de vacina até esta quarta-feira (9) — 24,48% receberam somente a primeira dose. No total, até esta quarta, o Brasil tinha quase 480 mil mortos por Covid, segundo o consórcio, e 17,1 milhões já tinham contraído a doença. Em outras ocasiões, Bolsonaro já demonstrou não ter apreço pelas máscaras como forma de proteção contra a Covid.

Marcelo Queiroga tem defendido, desde que assumiu o ministério, que as pessoas usem máscaras e mantenham o distanciamento social. O tema causa ojeriza ao presidente Jair Bolsonaro, mas o paraibano também entende que os municípios precisam usar medidas mais duras para impor o isolamento social quando houver falta de leitos nas UTIs. Apesar disso, ele tira o corpo fora quando questionado sobre o porquê de não cobrar as mesmas posturas do presidente. A alegação é a de que não é censor do presidente.

O fato é que o próprio Queiroga já admitiu que tem autonomia, mas não carta branca para mandar em tudo no Ministério da Saúde. O presidente pediu um parecer, o ministro entendeu que a pretensão é apenas de um estudo. Mas o fato é que o discurso de Bolsonaro, feito nesta quinta, teve ali um misto de tom de cobrança e ameaça. No momento em que partidos procuram o Supremo Tribunal Federal (STF) para obrigar o gestor a usar máscara nos eventos, o gestor procura apresentar um gesto de força.

O preço disso, no entanto, pode ser muito alto. Se o presidente insistir, Queiroga será obrigado a cumprir a determinação. Foi assim com Eduardo Pazuello, seu antecessor. Se não cumprir, terá que fazer algo parecido com Eduardo Mandetta e Nelso Teich e largar o osso. Até porque a regra no governo, até agora, tem sido a de que a porta da rua é a serventia da casa.

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