Legislativo
CPI sempre acaba em pizza, mas a da pandemia trará prejuízo a Bolsonaro
09/04/2021 07:13
Suetoni Souto Maior
Jair Bolsonaro (C) trabalha para se viabilizar eleitoralmente para a reeleição. Foto Marcos Corrêa/PR

A forma torta como será tirada do papel a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, no Senado, escancara a pressão para o debate amplo sobre a política do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no enfrentamento dos efeitos da Covid-19. A instalação da investigação foi determinada pelo ministro Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Digamos aqui duas verdades: a investigação é fruto de intromissão do Judiciário no Legislativo e terá impacto político negativo para o presidente.

Todos os analistas políticos, sem exceção, veem a CPI que vai investigar o comportamento do presidente durante a pandemia como a possibilidade de um “massacre” em praça pública. Alguns governistas correram às redes sociais nesta quinta-feira (8) para dizer que não, que o presidente será “ovacionado”. É difícil, de fato, que alguém em sã consciência acredite nisso. A postura do presidente durante a pandemia foi errádica em vários momentos e trouxe muitos prejuízos à saúde pública.

E tem mais uma coisa: CPI a gente sabe como começa e como termina. Ela surge da pressão popular (e neste caso ajudada pelo Supremo) e termina em pizza. O problema de tudo, para o investigado, está no recheio. Neste caso, o de Bolsonaro, virá repleto de episódios de envio de cloroquina quando um Estado pediu ajuda por falta de oxigênio, defesa de medicamentos sem eficácia comprovada, provocação de aglomerações e muitos outros problemas.

Bom mesmo será para a oposição. O governador de São Paulo, João Dória (PSDB), conseguiu ser muito mais efetivo que o presidente em meio à pandemia, já que se não fosse a CoronaVac estaríamos muito mais atrasados no cronograma de vacinação. O ex-presidente Lula (PT), o “Bicho Papão” que assusta o presidente, também poderá se projetar neste momento. Essa politização inevitável foi alvo de queixa do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Pacheco, que é aliado do presidente, prevê uma politização desenfreada. É inegável que 2022 vai baixar em todos os debates no Senado. E é evidente que não será possível evitar o desgaste. Mas tudo isso é reflexo do comportamento do presidente desde 2019, quando assumiu o mandato e decidiu se manter em um palanque perpétuo. O custo deste comportamento é que todos os debates que ocorrem nas bordas migram para o enfrentamento político. E a CPI será um prato cheio para isso.

O fato é que a exposição dos absurdos poderá fazer com que a CPI que costumeiramente nunca dá em nada fundamente um processo de impeachment que, neste caso, traga o risco de cassação de mandato, já que esses processos se movem ao sabor do vento. E como o vento que sopra em uma pandemia costuma levar ao mitológico rio Lete, melhor o presidente botar as barbas de molho.

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