Executivo
Bolsonaro retorna ao Brasil com militância ativa, mas enrolado com escândalo das joias e risco de inelegibilidade
30/03/2023 07:45
Suetoni Souto Maior
Jair Bolsonaro antes de deixar o governo no ano passado. Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem uma pá de motivos para ficar feliz no retorno ao Brasil e outra para consumir as unhas de tanta preocupação. No primeiro caso, os sinais são inequívocos. Foi bastante aplaudido ainda nos Estados Unidos no embarque para o país comandado por ele até o fim do ano passado e recebeu afagos na chegada. O ex-gestor chega com a missão de liderar a oposição contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vitorioso nas eleições do ano passado. Na viagem de retorno, ouviu apenas um passageiro gritar “cadeia” e essa tem sido uma preocupação presente na vida do ex-presidente.

Mas se detendo primeiro ao assunto inicial, os planos do PL são de que o ex-presidente percorra o país e reforce as campanhas visando as eleições municipais. O partido tem a maior bancada no Congresso e agora planos de crescer no comando de prefeituras importantes. A meta, por exemplo, é focar o Sul e o Sudeste, mas sem esquecer de tentar criar uma base sólida no Nordeste. A região é a mais refratária a Bolsonaro e onde ele amargou uma dura derrota frente ao presidente Lula nas eleições de outubro.

Do ponto de vista da militância, o ex-presidente conservou o eleitorado de extrema-direita. Ele tem, também, uma commodity importante no objetivo de potencializar isso, que é investir no antipetismo. Lula, comprovadamente, conta com grande popularidade, mas carrega atrás de si um público tão volumoso quanto que não tolera o petista. Foi essa parcela da população que tradicionalmente votava no PSDB que deu sustentação e votou em Bolsonaro no segundo turno das eleições do ano passado. O movimento que será buscado pelo ex-gestor, portanto, seguirá na linha de tentar ampliar esse público.

Bolsonaro precisará, sobretudo, trabalhar para que lideranças ascendentes no campo conservador não ganhem tração como contraponto do petismo. Um deles é o senador Sérgio Moro (União-PR), que recentemente ganhou um embate forte com Lula por causa de declarações atrapalhadas do petista. O ex-juiz, no entanto, viu esse boom de oportunidades estancar com as denúncias de Tacla Duran, que o acusa de tentativa de extorsão durante a vigência da operação Lava Jato. O caso foi remetido para o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a vontade de Moro.

Mas por falar em Justiça, alguns obstáculos serão intransponíveis para Bolsonaro. Um deles tem a ver com os processos na seara eleitoral. Dez entre dez juristas preveem que ele será considerado inelegível ainda neste primeiro semestre em julgamento de Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As acusações são de que ele trabalhou para desacreditar as eleições e houve ainda a minuta golpista, encontrada na casa do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres. E há precedentes para garantir essa inelegibilidade.

Em 2021, um aliado do ex-presidente, Fernando Destito Francischini, teve o mandato de deputado estadual cassado por divulgar notícias falsas contra o sistema eletrônico de votação. A ação contra Bolsonaro foi motivada pela reunião com embaixadores para apresentar suspeições contra o sistema eleitoral brasileiro. Esse caso acabou ganhando muitas contribuições desde então, com uma série de declarações e movimentos golpistas e confrontos com o Supremo. O medo de ser preso, ao que parece, fomentou o prolongamento da estadia do ex-gestor nos Estados Unidos. Lá ele ficou por três meses.

Bolsonaro ganhou mais recentemente um novo escândalo para chamar de seu: o relacionado às tentativas de apropriação de conjuntos de joias presenteadas pela ditadura Arábia Saudita. Um deles, avaliado em R$ 16,5 milhões, foi apreendido durante tentativa de ser introduzido no país de forma ilegal, sem ser declarado. Em pelo menos oito oportunidades, o presidente e seus assessores tentaram reaver as joias – sucesso obtido em relação a dois outros conjuntos e também armas personalizadas recebidas de presente também da monarquia do Oriente Médio.

O ex-presidente, inclusive, terá que prestar depoimento na Polícia Federal na próxima semana sobre acusações de peculato ou descaminho dos presentes que não poderiam ser incorporados ao patrimônio pessoal, segundo norma definida pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão, vale ressaltar, determinou a devolução dos presentes que eram guardados pelo ex-piloto de Fórmula 1, Nelson Piquet. Ou seja, o presidente desembarca cheio de esperanças de recuperar a liderança no país, mas ainda assombrado pelos erros do passado.

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